
Tento escrever, como sempre escrevi, frases soltas, palavras bonitas, conjuntos que soam bem. Ouço música, penso em coisas boas, mas não sei porquê, choro.
Sinto-me decepcionada comigo e com o mundo. O caminho que ontem estava escancarado, fechou-se com um elegante bater. Que me interessa a elegância, a boa educação, o meu bem-querer? Estou farta de máscaras. Farta de que me digam o que fazer para parecer perfeita.
Não sei se deva colocar o rosto de quem, em vão, me tenta guiar, entre as minhas mãos, e gritar bem alto, dizer-lhes que me esqueçam, que não gosto, nem nunca vou ser um peão de uma sociedade feita de papel. Não sei se me deva agachar no meu quarto, a um canto, e chorar, libertar uma imensidão de lágrimas, que me permitam lavar a alma, e ganhar novo folgo, para me conseguir levantar e continuar a actuar.
Se amo pessoas, não amo máscaras. Logo, não amo ninguém. Amo sentimentos, emoções e estados de espírito. Amo o amor que não sinto, amo a alegria que me é dada em fracções, amo a paz de alma que nunca tive.
Se ao menos alguém actuasse ao meu lado e tirasse a máscara ao mesmo tempo que eu... Poderíamos beber um café, numa qualquer esquina, e falar de coisas interessantes, tal como a verdade. Poderíamos rir, de coisas boas. Poderíamos ir a uma praia, ver o amarelo alaranjado do pôr-do-sol, caminhar de mãos dadas, horas a fio, na areia morna e húmida. Poderíamos fingir-nos de loucos, e entrar vestidos na água gelada, voltar e refazer as pegadas, gravá-las no pensamento e no coração. Poderíamos encostar a cabeça um no outro, sentados no comboio, enquanto, exaustos, ouviríamos o inconfundível som do seu trabalhar, que nos levaria de volta. Enquanto isso, retribuiria as caretas engraçadas que me seriam endereçadas por uma criança traquina que se sentaria à minha frente. Identificar-me-ia me com ela e contemplá-la-ia com um olhar ternurento e com nostalgia, com uma boa nostalgia. Poderia chegar a casa, sentindo ainda o cheiro a maresia, deitar-me com estrondo, sentindo-me leve e feliz. Fecharia os olhos e ouviria ainda o ribombar das ondas, recordaria a sensação daquela espuma branca nos pés. Tomaria um banho, quente, e dormiria com a certeza que o amanhã seria igual ao melhor.
Se ao menos as máscaras se derretessem à luz da verdade.
Se ao menos houvesse um momento, que pudesse recordar sem mágoa nem saudade, se ao menos a vida tivesse uma face perfeita. Apenas uma.
20-03-2004
2 comentários:
este já conhecia, mas para variar fico deliciada com todos os textos que escreves, este é um dos meus preferidos :)
hum.. ca esta o que eu pedi! =) gsto muito deste texto! tambem escreves muito bem.. ;) tens jeito rapariga.. lol =P beijinhos
Enviar um comentário